Humano…

“Corpo e consciência

Animal e espírito

Cheiro, dor, fome, frio, bicho

Arte, amor, lágrimas, compaixão e riso

Matéria que se encerra

Num espaço infinito

Oportunidade, pensamento, livre arbítrio

Essência, mudança, inconstante estabilidade

Adrenalina, ação, esperança e serenidade

Comportamento, agrupamento, limitado tempo

Interação, desunião, comunidade, solidão

Claridade e escuridão

Indivíduo inserido em bilhonésima multidão

Ser que possui, sem se possuir

Ser que domina, sem se dominar

Esqueceram de dizer, que além de criador,

Dentre todas as criaturas,

A única capaz de sonhar…”

Ana Carolina Dias.

E que seja proveitosa toda dor que floresce na mente e desperta o coração…

Quando eu não consigo ser, eu escrevo, pra me lembrar do que eu quero

Quando me sinto tão pequenina, e a vida tão onipotente

Feito uma pedrinha, que inevitavelmente, desce rolando abaixo a ribanceira,

Quando ainda há tanto que aprender, quando preciso escutar, desacelerar, compreender

É uma dor proveitosa, se consigo sair de mim, e me ver

Agindo como eu não devo, e esperando o que eu não mereço ainda receber…

Eu quero estar realmente aqui.Fazer algo, ser a mudança.

A medicina é, pra mim, como estado de oração.

Fazer justiça, fazer o amor, fazer a paz.

Viver o próximo, viver em sua totalidade.

Deixar pegadas de humanidade.

Só assim terá valido toda a dor pelo caminho, vivida, observada, e compartilhada.

Algo grandioso, a gente pode, sim, fazer.

Grande na entrega e no cuidado, na lembrança, e no devotamento.

Porque a miséria é feita de esquecimentos, de indiferença.

Senhor, que esta vida seja sim uma oração, construindo dias melhores

para quem coexiste ao meu lado, e para os que hão respirar o ar que hoje respiro.

 

Os mendigos da minha rua.

Os mendigos da minha rua gritam, e incomodam, eu nada faço. Niguém faz nada. As vezes até se drogam nessa paisagem camuflada, ninguém faz nada. Tenho medo da vida deles, tão enjeitada. São capazes de tudo, nada tem a perder. Ninguém se encoraja a tratá-los, e o vício das drogas insiste em vencer. Tenho medo da morte deles, pesando a consciência. Ninguém fez nada, hoje indigentes, é mais um corpo nas Faculdades a se abrir, uma vida perdida. Que valor tem a vida?

Deus, ajuda-me no autodomínio

Não sei mais o que faço, a ansiedade mais parece uma água ascendente, que vai subindo, e subindo, e a gente sabe que uma hora teremos de nela mergulhar…Prender a respiração, enfrentar! Ajuda-me, Senhor, nessa hora, encontro-me irreconhecível do ser racional e organizado de antes… Preciso de paz, de autocontrole, profunda respiração…

 

 

Milagre torrencial

 

São João, faiz um favô

negocia com São Pedro

Meu padim, padim Ciço

Avisa pro Conselheiro

Que cá Nu Agreste braseiro,

Muitas léguas debaixo do céu

Nem um pé de chuva inda caiu

E já tem meio ano inteiro…

 

 

Num pode ter mio, mendoim,

cuzcuz, queintão…

 Na mesa nordestina, dessi jeitcho não!

Sargado fastio di terra rachada

Que martrata gente e bicho de montão

Barro não mata sede, meu sinhô!

Num pode mais ter forró na praça,

 xaxado, nem xote, e baião!

 

Já num pode vir gente pras festa

O dinhero num vai entrá  no colchão

 

Com sede, as pranta num cresce, o gado disaba

É galo, é porco, é cabra,

Vai tudo afinano feito paia pro fogão

Os rio vão ficano magrinho, inté sumi di veiz

Das vista doída desse Sol ardente

Inté o vento impoerado vem quente

Num tem nada pra si  beber,

 Num tem farinha que desça numa guela cum sede!

 

E a gente vai se aguentano nas casa de taipa,

Com fome, já quase sem força pra viver…

O padre cancelou a missa e a novena

 Minha Virgem Maria alumia esses homi di puder!

 

A realidadi é silenciosa, pusquê a dô é cortanti

Ninguém já num sabi mais o qui fazer

Si huver um Deus de misericórdia,

Si seu puder for mermo grandi

 

Manda água valiosa pro sertão di minha genti

Fecha todas as ferida  

No chão do meu Nordeste

Num só dilúvio, numa  só inchente

Num toró furioso,  milagre torrencial que alimente